Sobre as Memórias – Rubem Alves
Memória é onde se guardam as coisas do passado.
Há dois tipos de memória: memórias sem vida própria e memórias com vida própria.
As memórias sem vida própria são inertes. Não têm vontade. Sua existência é semelhante à das ferramentas guardadas numa caixa. Não se mexem. Ficam imóveis nos seus lugares, à espera. À espera de que? À espera de que as chamemos. Ao chegar a um hotel a recepcionista nos entrega uma ficha para ser preenchida. Lá estão os espaços em branco onde deverei escrever meu nome, endereço, número da carteira de identidade, do CPF, número do telefone, e-mail. Abro a minha caixa de memórias sem vida própria e encontro as informações pedidas. Se desejo ir do meu apartamento à casa de um amigo eu pergunto: que ruas tomar para chegar lá? Abro a caixa de ferramentas e lá encontro um mapa do itinerário que devo seguir. É da caixa das memórias sem vida própria que se valem os alunos para responder às questões propostas pelo professor numa prova. Se a memória não estiver lá ele receberá uma nota má…
São essas as memórias que os neurologistas testam para ver se uma pessoa está sofrendo do mal de Alzheimer. O médico, como quem não quer nada, vai discretamente fazendo perguntas sobre a cidade onde se nasceu, o nome dos pais, onde moram os filhos. Se a pessoa não souber responder é porque sua caixa de memórias está vazia. Essas memórias são muito importantes. Sem elas não poderíamos nos virar na vida. Estaríamos sempre perdidos.
As memórias com vida própria, ao contrário, não ficam quietas dentro de uma caixa. São como pássaros em vôo. Vão para onde querem. E podemos chamá-las que elas não vêm. Só vêm quando querem. Moram em nós, mas não nos pertencem. O seu aparecimento é sempre uma surpresa. É que nem suspeitávamos que estivessem vivas! A gente vai calmamente andando pela rua e, de repente, um cheiro de pão. E nos lembramos da mãe assando pães na cozinha… Viajando, olhando a paisagem com pensamento perdido, vemos um rio. E a alma começa a recitar “O Tejo é mais belo que o rio da minha aldeia. Mas o Tejo não é mais belo que o rio da minha aldeia. Porque o Tejo não é o rio da minha aldeia”.E nos lembramos então do riachinho em que brincávamos quando crianças.
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MEMORIAL DE FORMAÇÃO – REGISTRO DE UM PERCURSO
Ana Lúcia Guedes-Pinto1
Escrever um memorial?
A tarefa de escrever um memorial de formação pode se configurar, a princípio, como um desafio difícil de se enfrentar, pois nos provoca inúmeras questões e dúvidas tais como: que encaminhamentos devemos dar a sua escrita? Que escolhas fazer em sua narrativa? O que se conta e o que não se deve revelar? E se não conseguirmos lembrar? E se a memória falhar? Como ter o discernimento sobre o que é relevante contar?
Creio que todos esses questionamentos fazem parte do processo da escrita de um texto marcado pela subjetividade – pois se trata do relato da experiência vivida do sujeito narrador - e que ainda possui a particularidade de se referir à sua história pessoal. No entanto, vários autores como Pollak (1992) e Bosi (1995) enfatizam que essa história pessoal é perpassada e nuançada pela história sócio-cultural em que estamos todos inseridos, no movimento da história do Homem. Por outro lado, Portelli (1997) acrescenta a essas considerações o fato de que, apesar de as memórias individuais serem constituídas a partir dessa vivência socialmente compartilhada, elas serão sempre singulares e únicas, pois cada sujeito traz consigo uma experiência própria de vida e, neste aspecto, irrepetível. Ou seja, a história de cada um não poderá ser igual a de qualquer outro e, neste sentido, ela sempre contribuirá com mais uma versão dos fatos vividos, enriquecendo e ampliando o patrimônio histórico-cultural da humanidade. Por essa perspectiva, um memorial – no âmbito de um curso de formação de professores com o caráter de trabalho de conclusão – está tanto voltado ao registro da trajetória pessoal do sujeito-narrador tendo como referência a formação acadêmico-profissional como também será marcado e circunscrito pelo movimento mais amplo da história, sendo socialmente datado e constituído, pois terá sua redação, sua construção e publicação ocorridas dentro de um curso de formação específico, em uma faculdade e universidade específicas, em um tempo histórico definido.
Trabalhar com a memória.
Bosi (1995), em seu trabalho de livre-docência por meio do qual focalizou a reconstrução da memória de velhos paulistanos, destaca o caráter da memória-trabalho. Ou seja, a rememoração não é, em geral, espontânea e livre, mas um processo que envolve esforços e dedicação (no caso de pessoas idosas essa faceta se revela com mais nitidez). Afirma a autora:
Na maior parte das vezes, lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e idéias de hoje, as experiências do passado. A memória não é sonho, é trabalho. (Bosi, 1995: 55)
Soares (1991), ao escrever seu memorial como exigência para a inscrição no concurso de professora titular da UFMG, destaca um outro aspecto a respeito do movimento de rememorar. Quando nos voltamos a olhar para o nosso passado, ao tentarmos recuperar os diversos caminhos pelos quais passamos na trajetória de nossa vida, sempre o fazemos tendo em vista o momento presente em que vivemos. Não dá para fugirmos da nossa condição de sujeitos engajados na vida do nosso hoje e do nosso agora. Em seu texto a autora enfatiza essa questão:
Procuro-me no passado e “outrem me vejo”; não encontro a que fui, encontro alguém que a que sou vai reconstruindo, com a marca do presente. Na lembrança, o passado se torna presente e se transfigura, contaminado pelo aqui e agora (grifos da autora - 1991: 37).
No trecho acima Soares torna visível o aspecto da reconstrução da memória: rememoramos a partir do nosso presente encarnado, a partir da nossa compreensão de vida até aquele determinado momento em que lembramos. É com base na realidade vivida que conseguimos olhar para o passado: por isso “reconstrução”. Somado a isso, Thomson (1997), historiador oral que estudou através de depoimentos orais a participação dos trabalhadores
1 Professora da Faculdade de Educação da Unicamp e coordenadora do grupo AULA.
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australianos como soldados na Primeira Guerra Mundial, além de ressaltar esse entrecruzamento constante entre os tempos vividos – aquele tempo que se foi e aquele que está sendo - no processo de rememoração, também chama atenção para a capacidade prospectiva que o trabalho da memória proporciona, assumindo o papel de propulsora de um futuro, possibilitando outras projeções para quem rememora. E aliado a esse fator, o autor ainda focaliza outro ponto concernente a esse processo: a rememoração relaciona-se à construção identitária do narrador, está intimamente ligada à identidade. Ele explicita:
Ao narrar uma história, identificamos o que pensamos que éramos no passado, quem pensamos que somos no presente e o que gostaríamos de ser. As histórias que relembramos não são representações exatas de nosso passado, mas trazem aspectos desse passado e os moldam para que se ajustem às nossas identidades e aspirações atuais. Assim podemos dizer que nossa identidade molda nossas reminiscências; quem acreditamos que somos no momento e o que queremos ser afetam o que julgamos ter sido (Thomson, 1997: 57).
Ao reconstruirmos nossa memória estamos ao mesmo tempo modificando o presente e alterando o futuro. Por essa razão o trabalho com a memória amplia nosso horizonte de possibilidades, pois ela nos mobiliza e gera novas ações. Segundo Certeau (1994: 161), estudioso das práticas culturais, a memória produz uma ruptura instauradora.
Em decorrência desses vários aspectos constitutivos do trabalho com a memória, talvez uma pergunta surja em meio a tantas asserções: se ao reconstruirmos nosso passado o fazemos com os olhos do presente, como podemos nos assegurar de que lembramos dos fatos tal como ocorreram? Onde encontraremos a “verdade” de nosso passado? Como poderemos nos tranqüilizar de que nossa lembrança é confiável?
Sobre essas questões, diversos autores, como Thompson (1992), Portelli (1997) e Passerini (1993) já destacaram que a “verdade” entendida como algo fixo, estável e inquestionável não existe – não na perspectiva assumida por eles. Os fatos ocorridos na história terão sempre versões diferentes advindas da experiência de cada sujeito que os viveu. Assim, é constitutivo do ato de rememorar o imaginário de cada um. O que vale, ao nos debruçarmos sobre as lembranças que vão ficando e sendo registradas, é nos abrirmos e termos sensibilidade para compreendermos os sentidos atribuídos pelos sujeitos a respeito da experiência vivida. Amado (2003), historiadora oral, enfoca outro ponto relevante: o caráter simbólico contido na narração do passado. Neste aspecto, o trabalho com a memória reúne uma pluralidade de significados, ele documenta e registra – no nosso caso específico, o memorial de formação - a diversidade das vivências.
O papel da narrativa no processo de rememoração.
Ao rememorarmos, ao nos voltarmos ao passado e procurarmos torna-lo um relato, geralmente o fazemos por meio da narrativa. Esse modo de dizer específico - o narrar - possui algumas peculiaridades que o distinguem de outros modos de dizer e que por isso mesmo o tornam como meio eleito para a rememoração.
Segundo Benjamin (1996) a narrativa encerra saberes antigos e distantes da nossa cultura atual, pois germinou outrora como forma de expressão oral, como modo de manter vivas as histórias que não se podiam esquecer jamais, patrimônio da humanidade. A narrativa, conforme afirma o autor, tem como fonte de seu enredo e de sua tessitura a experiência acumulada pelo narrador. Ela possui a qualidade de conservar a tradição, de manter viva suas relíquias justamente por que pode ser facilmente contada e re-contada, alcançando com isso ampla circulação social, pois tem uma dimensão utilitária e um laço estreito com seus ouvintes. Por essa perspectiva, a narrativa está articulada à memória, à preservação de um saber-fazer socialmente constituído e cultivado.
Souza e Kramer (1996), tomando Benjamin e Bakhtin como referências teóricas em um trabalho que desenvolveram junto aos professores do município do Rio de Janeiro, compreendem a narrativa como espaço de produção de linguagem no qual se constroem conhecimentos e por meio do qual experiências podem ser compartilhadas. Ao optarem trabalhar com as histórias de vida desses professores e buscarem reconstituir sua relação pessoal com a leitura e a escrita, acreditam que essa possa ser uma maneira de compreender as práticas sociais e educativas desses sujeitos, sem com isso incorrer na postura de lançarem um olhar explicativo que tenha
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como foco categorizar suas práticas. As autoras preferem apreender, através das narrativas colhidas e registradas, como esses professores se vêem e que experiências trazem consigo na qualidade de leitores e escritores.
Memória e formação.
Kenski (1996), pesquisadora da área de formação de professores, acredita que o trabalho de rememoração realizado junto aos professores pode trazer pistas importantes a eles sobre sua prática docente, fornecendo com isso elementos outros para a compreensão dos vários aspectos constitutivos de sua vida profissional. A autora assume, portanto, o trabalho com a memória como uma alternativa possível de se fazer uso no processo de formação docente. Segundo a perspectiva que defende:
A análise e discussão das marcas do passado podem levar à compreensão da repercussão, na vida profissional, de diferentes situações vividas: crises, mudanças, rupturas, sucessos e fracassos. Esse conhecimento possibilita ao professor tomar medidas no sentido de superar determinados problemas, reformular concepções pessoais sobre sua maneira de ensinar, seu relacionamento com a disciplina, as formas que utiliza para avaliar seus alunos etc. além de resgatar a imagem pessoal do bom professor, construída a partir dos contatos efetuados durante toda a sua trajetória escolar (grifos da autora - Kenski, 1996: 106-107)
Kenski destaca um outro aspecto relativo à reconstrução da memória: quando nos engajamos no processo de rememoração temos a possibilidade de refletirmos sobre nós mesmos, sobre nossa história particular, nosso percurso de vida.
Ao nos propormos reconstruir nosso passado (distante ou próximo) temos a oportunidade de repensarmos e ponderarmos a respeito de quem somos e de quem temos sido. Podemos dizer também que o processo de rememorar abre diversas vias, entre as quais a de nos surpreendermos conosco ao longo dessa retomada e ao longo desse recontar e a de nos darmos conta de elaborações e reflexões que nem sabíamos habitar-nos. Neste sentido, o trabalho com a memória é “formativo”, ou seja, proporciona transformações e re-direcionamentos no seu caminhar.
Guedes-Pinto (2002), ao trabalhar com as histórias de leitura das professoras-alfabetizadoras, enfatiza essa faceta da formação no processo de reconstrução da memória. A autora foi constatando que, ao recuperarem suas histórias como leitoras, as professoras tiveram a possibilidade de refletir sobre si mesmas e a re-conceitualizar a prática de leitura:
Compartilhar as memórias de leitura constituiu-se, na realidade, uma estratégia de trabalho por meio da qual as professoras puderam refletir sobre as concepções de leitura que as formaram e aquelas que circulam na mídia, na academia e na escola. No processo de reviver o passado, suas leituras antigas puderam ser re-significadas e re-dimensionadas a partir de um novo conceito de leitura, que foi sendo construído ao longo da nossa relação interativa (Guedes-Pinto, 2002: 240).
A rememoração possui essa força de nos colocar em xeque, de nos formular indagações sobre o vivido, sobre nossas escolhas e nossa experiência. E justamente em função desse diálogo que se inicia conosco mesmo é que nos revemos e nos surpreendemos “passando a limpo” a nossa história.
Lançar-se então à escrita de um memorial de formação através do qual temos a oportunidade de registrarmos e re-fazermos um percurso específico de nossa vida - nossa formação escolar-acadêmica e profissional – pode ser talvez uma maneira de divisarmos outros finais para a história que está em seu pleno transcurso...
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Referências bibliográficas:
AMADO, Janaína. O Cervantes de Goiás. In Nossa História. N. 02. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 2003.
BENJAMIN, Walter. O narrador – considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. (Obras Escolhidas vol. I). (7a ed.) São Paulo: Brasiliense, 1996.
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade – Lembranças de Velhos. São Paulo: Cia das Letras, 1995.
CERTEAU, Michel de. Invenções do cotidiano – artes de fazer. Petrópolis, RJ: Vozes: 1994.
GUEDES-PINTO, Ana Lúcia. Rememorando trajetórias da professora-alfabetizadora: a leitura como prática constitutiva de sua identidade e formação profissionais. São Paulo: Fapesp; Campinas: Faep/Mercado de Letras, 2002.
KENSKI, Vani Moreira. Memória e Prática Docente. In BRANDÃO, Carlos Rodrigues (org.) As Faces da Memória. Campinas: Centro de Memória-Unicamp, 1996.
PASSERINI, Luisa. Mitobiografia em História Oral. In Projeto História. N. 10. São Paulo: EDUC, 1993
POLLAK, Michael. “Memória e identidade social”. In: Estudos Históricos vol. 5 n. 10. Rio de Janeiro, 1992.
PORTELLI, Alessandro. “Tentando aprender um pouquinho, algumas reflexões sobre a ética na história oral” In: Projeto História n°15, São Paulo: Educ, 1997.
SOARES, Magda. Metamemória –memórias: travessia de uma educadora. São Paulo: Cortez, 1990.
SOUZA, Solange Jobim e KRAMER, Sônia. Experiência humana, história de vida e pesquisa: um estudo da narrativa, leitura e escrita de professores. In SOUZA, Solange Jobim e KRAMER, Sônia (orgs.) Histórias de professores: leitura, escrita e pesquisa em educação. São Paulo: Ática, 1996.
THOMPSON, Paul. A Voz do Passado: História Oral. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
THOMSON, Alistair. “Recompondo a memória: questões sobre a relação entre a história oral e as memórias”. In: Projeto História n° 15. São Paulo: EDUC, 1997.
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MEMORIAL DE FORMAÇÃO – REGISTRO DE UM PERCURSO
Ana Lúcia Guedes-Pinto1
Escrever um memorial?
A tarefa de escrever um memorial de formação pode se configurar, a princípio, como um desafio difícil de se enfrentar, pois nos provoca inúmeras questões e dúvidas tais como: que encaminhamentos devemos dar a sua escrita? Que escolhas fazer em sua narrativa? O que se conta e o que não se deve revelar? E se não conseguirmos lembrar? E se a memória falhar? Como ter o discernimento sobre o que é relevante contar?
Creio que todos esses questionamentos fazem parte do processo da escrita de um texto marcado pela subjetividade – pois se trata do relato da experiência vivida do sujeito narrador - e que ainda possui a particularidade de se referir à sua história pessoal. No entanto, vários autores como Pollak (1992) e Bosi (1995) enfatizam que essa história pessoal é perpassada e nuançada pela história sócio-cultural em que estamos todos inseridos, no movimento da história do Homem. Por outro lado, Portelli (1997) acrescenta a essas considerações o fato de que, apesar de as memórias individuais serem constituídas a partir dessa vivência socialmente compartilhada, elas serão sempre singulares e únicas, pois cada sujeito traz consigo uma experiência própria de vida e, neste aspecto, irrepetível. Ou seja, a história de cada um não poderá ser igual a de qualquer outro e, neste sentido, ela sempre contribuirá com mais uma versão dos fatos vividos, enriquecendo e ampliando o patrimônio histórico-cultural da humanidade. Por essa perspectiva, um memorial – no âmbito de um curso de formação de professores com o caráter de trabalho de conclusão – está tanto voltado ao registro da trajetória pessoal do sujeito-narrador tendo como referência a formação acadêmico-profissional como também será marcado e circunscrito pelo movimento mais amplo da história, sendo socialmente datado e constituído, pois terá sua redação, sua construção e publicação ocorridas dentro de um curso de formação específico, em uma faculdade e universidade específicas, em um tempo histórico definido.
Trabalhar com a memória.
Bosi (1995), em seu trabalho de livre-docência por meio do qual focalizou a reconstrução da memória de velhos paulistanos, destaca o caráter da memória-trabalho. Ou seja, a rememoração não é, em geral, espontânea e livre, mas um processo que envolve esforços e dedicação (no caso de pessoas idosas essa faceta se revela com mais nitidez). Afirma a autora:
Na maior parte das vezes, lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e idéias de hoje, as experiências do passado. A memória não é sonho, é trabalho. (Bosi, 1995: 55)
Soares (1991), ao escrever seu memorial como exigência para a inscrição no concurso de professora titular da UFMG, destaca um outro aspecto a respeito do movimento de rememorar. Quando nos voltamos a olhar para o nosso passado, ao tentarmos recuperar os diversos caminhos pelos quais passamos na trajetória de nossa vida, sempre o fazemos tendo em vista o momento presente em que vivemos. Não dá para fugirmos da nossa condição de sujeitos engajados na vida do nosso hoje e do nosso agora. Em seu texto a autora enfatiza essa questão:
Procuro-me no passado e “outrem me vejo”; não encontro a que fui, encontro alguém que a que sou vai reconstruindo, com a marca do presente. Na lembrança, o passado se torna presente e se transfigura, contaminado pelo aqui e agora (grifos da autora - 1991: 37).
No trecho acima Soares torna visível o aspecto da reconstrução da memória: rememoramos a partir do nosso presente encarnado, a partir da nossa compreensão de vida até aquele determinado momento em que lembramos. É com base na realidade vivida que conseguimos olhar para o passado: por isso “reconstrução”. Somado a isso, Thomson (1997), historiador oral que estudou através de depoimentos orais a participação dos trabalhadores
1 Professora da Faculdade de Educação da Unicamp e coordenadora do grupo AULA.
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australianos como soldados na Primeira Guerra Mundial, além de ressaltar esse entrecruzamento constante entre os tempos vividos – aquele tempo que se foi e aquele que está sendo - no processo de rememoração, também chama atenção para a capacidade prospectiva que o trabalho da memória proporciona, assumindo o papel de propulsora de um futuro, possibilitando outras projeções para quem rememora. E aliado a esse fator, o autor ainda focaliza outro ponto concernente a esse processo: a rememoração relaciona-se à construção identitária do narrador, está intimamente ligada à identidade. Ele explicita:
Ao narrar uma história, identificamos o que pensamos que éramos no passado, quem pensamos que somos no presente e o que gostaríamos de ser. As histórias que relembramos não são representações exatas de nosso passado, mas trazem aspectos desse passado e os moldam para que se ajustem às nossas identidades e aspirações atuais. Assim podemos dizer que nossa identidade molda nossas reminiscências; quem acreditamos que somos no momento e o que queremos ser afetam o que julgamos ter sido (Thomson, 1997: 57).
Ao reconstruirmos nossa memória estamos ao mesmo tempo modificando o presente e alterando o futuro. Por essa razão o trabalho com a memória amplia nosso horizonte de possibilidades, pois ela nos mobiliza e gera novas ações. Segundo Certeau (1994: 161), estudioso das práticas culturais, a memória produz uma ruptura instauradora.
Em decorrência desses vários aspectos constitutivos do trabalho com a memória, talvez uma pergunta surja em meio a tantas asserções: se ao reconstruirmos nosso passado o fazemos com os olhos do presente, como podemos nos assegurar de que lembramos dos fatos tal como ocorreram? Onde encontraremos a “verdade” de nosso passado? Como poderemos nos tranqüilizar de que nossa lembrança é confiável?
Sobre essas questões, diversos autores, como Thompson (1992), Portelli (1997) e Passerini (1993) já destacaram que a “verdade” entendida como algo fixo, estável e inquestionável não existe – não na perspectiva assumida por eles. Os fatos ocorridos na história terão sempre versões diferentes advindas da experiência de cada sujeito que os viveu. Assim, é constitutivo do ato de rememorar o imaginário de cada um. O que vale, ao nos debruçarmos sobre as lembranças que vão ficando e sendo registradas, é nos abrirmos e termos sensibilidade para compreendermos os sentidos atribuídos pelos sujeitos a respeito da experiência vivida. Amado (2003), historiadora oral, enfoca outro ponto relevante: o caráter simbólico contido na narração do passado. Neste aspecto, o trabalho com a memória reúne uma pluralidade de significados, ele documenta e registra – no nosso caso específico, o memorial de formação - a diversidade das vivências.
O papel da narrativa no processo de rememoração.
Ao rememorarmos, ao nos voltarmos ao passado e procurarmos torna-lo um relato, geralmente o fazemos por meio da narrativa. Esse modo de dizer específico - o narrar - possui algumas peculiaridades que o distinguem de outros modos de dizer e que por isso mesmo o tornam como meio eleito para a rememoração.
Segundo Benjamin (1996) a narrativa encerra saberes antigos e distantes da nossa cultura atual, pois germinou outrora como forma de expressão oral, como modo de manter vivas as histórias que não se podiam esquecer jamais, patrimônio da humanidade. A narrativa, conforme afirma o autor, tem como fonte de seu enredo e de sua tessitura a experiência acumulada pelo narrador. Ela possui a qualidade de conservar a tradição, de manter viva suas relíquias justamente por que pode ser facilmente contada e re-contada, alcançando com isso ampla circulação social, pois tem uma dimensão utilitária e um laço estreito com seus ouvintes. Por essa perspectiva, a narrativa está articulada à memória, à preservação de um saber-fazer socialmente constituído e cultivado.
Souza e Kramer (1996), tomando Benjamin e Bakhtin como referências teóricas em um trabalho que desenvolveram junto aos professores do município do Rio de Janeiro, compreendem a narrativa como espaço de produção de linguagem no qual se constroem conhecimentos e por meio do qual experiências podem ser compartilhadas. Ao optarem trabalhar com as histórias de vida desses professores e buscarem reconstituir sua relação pessoal com a leitura e a escrita, acreditam que essa possa ser uma maneira de compreender as práticas sociais e educativas desses sujeitos, sem com isso incorrer na postura de lançarem um olhar explicativo que tenha
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como foco categorizar suas práticas. As autoras preferem apreender, através das narrativas colhidas e registradas, como esses professores se vêem e que experiências trazem consigo na qualidade de leitores e escritores.
Memória e formação.
Kenski (1996), pesquisadora da área de formação de professores, acredita que o trabalho de rememoração realizado junto aos professores pode trazer pistas importantes a eles sobre sua prática docente, fornecendo com isso elementos outros para a compreensão dos vários aspectos constitutivos de sua vida profissional. A autora assume, portanto, o trabalho com a memória como uma alternativa possível de se fazer uso no processo de formação docente. Segundo a perspectiva que defende:
A análise e discussão das marcas do passado podem levar à compreensão da repercussão, na vida profissional, de diferentes situações vividas: crises, mudanças, rupturas, sucessos e fracassos. Esse conhecimento possibilita ao professor tomar medidas no sentido de superar determinados problemas, reformular concepções pessoais sobre sua maneira de ensinar, seu relacionamento com a disciplina, as formas que utiliza para avaliar seus alunos etc. além de resgatar a imagem pessoal do bom professor, construída a partir dos contatos efetuados durante toda a sua trajetória escolar (grifos da autora - Kenski, 1996: 106-107)
Kenski destaca um outro aspecto relativo à reconstrução da memória: quando nos engajamos no processo de rememoração temos a possibilidade de refletirmos sobre nós mesmos, sobre nossa história particular, nosso percurso de vida.
Ao nos propormos reconstruir nosso passado (distante ou próximo) temos a oportunidade de repensarmos e ponderarmos a respeito de quem somos e de quem temos sido. Podemos dizer também que o processo de rememorar abre diversas vias, entre as quais a de nos surpreendermos conosco ao longo dessa retomada e ao longo desse recontar e a de nos darmos conta de elaborações e reflexões que nem sabíamos habitar-nos. Neste sentido, o trabalho com a memória é “formativo”, ou seja, proporciona transformações e re-direcionamentos no seu caminhar.
Guedes-Pinto (2002), ao trabalhar com as histórias de leitura das professoras-alfabetizadoras, enfatiza essa faceta da formação no processo de reconstrução da memória. A autora foi constatando que, ao recuperarem suas histórias como leitoras, as professoras tiveram a possibilidade de refletir sobre si mesmas e a re-conceitualizar a prática de leitura:
Compartilhar as memórias de leitura constituiu-se, na realidade, uma estratégia de trabalho por meio da qual as professoras puderam refletir sobre as concepções de leitura que as formaram e aquelas que circulam na mídia, na academia e na escola. No processo de reviver o passado, suas leituras antigas puderam ser re-significadas e re-dimensionadas a partir de um novo conceito de leitura, que foi sendo construído ao longo da nossa relação interativa (Guedes-Pinto, 2002: 240).
A rememoração possui essa força de nos colocar em xeque, de nos formular indagações sobre o vivido, sobre nossas escolhas e nossa experiência. E justamente em função desse diálogo que se inicia conosco mesmo é que nos revemos e nos surpreendemos “passando a limpo” a nossa história.
Lançar-se então à escrita de um memorial de formação através do qual temos a oportunidade de registrarmos e re-fazermos um percurso específico de nossa vida - nossa formação escolar-acadêmica e profissional – pode ser talvez uma maneira de divisarmos outros finais para a história que está em seu pleno transcurso...
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Referências bibliográficas:
AMADO, Janaína. O Cervantes de Goiás. In Nossa História. N. 02. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, 2003.
BENJAMIN, Walter. O narrador – considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. (Obras Escolhidas vol. I). (7a ed.) São Paulo: Brasiliense, 1996.
BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade – Lembranças de Velhos. São Paulo: Cia das Letras, 1995.
CERTEAU, Michel de. Invenções do cotidiano – artes de fazer. Petrópolis, RJ: Vozes: 1994.
GUEDES-PINTO, Ana Lúcia. Rememorando trajetórias da professora-alfabetizadora: a leitura como prática constitutiva de sua identidade e formação profissionais. São Paulo: Fapesp; Campinas: Faep/Mercado de Letras, 2002.
KENSKI, Vani Moreira. Memória e Prática Docente. In BRANDÃO, Carlos Rodrigues (org.) As Faces da Memória. Campinas: Centro de Memória-Unicamp, 1996.
PASSERINI, Luisa. Mitobiografia em História Oral. In Projeto História. N. 10. São Paulo: EDUC, 1993
POLLAK, Michael. “Memória e identidade social”. In: Estudos Históricos vol. 5 n. 10. Rio de Janeiro, 1992.
PORTELLI, Alessandro. “Tentando aprender um pouquinho, algumas reflexões sobre a ética na história oral” In: Projeto História n°15, São Paulo: Educ, 1997.
SOARES, Magda. Metamemória –memórias: travessia de uma educadora. São Paulo: Cortez, 1990.
SOUZA, Solange Jobim e KRAMER, Sônia. Experiência humana, história de vida e pesquisa: um estudo da narrativa, leitura e escrita de professores. In SOUZA, Solange Jobim e KRAMER, Sônia (orgs.) Histórias de professores: leitura, escrita e pesquisa em educação. São Paulo: Ática, 1996.
THOMPSON, Paul. A Voz do Passado: História Oral. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
THOMSON, Alistair. “Recompondo a memória: questões sobre a relação entre a história oral e as memórias”. In: Projeto História n° 15. São Paulo: EDUC, 1997.
O texto acima faz uma reflexão profunda sobre a importância de se trabalhar com a "memória" de fatos que ocorreram no passado para nos localizar no presente com um novo olhar e a partir daí projetar um futuro melhor.
ResponderExcluirSendo assim a memória nos proporciona o encontro conosco mesmo nos colocando como sujeitos vivos de nossa história podendo assim rever e refazer caminhos.
Ass:Maria Teresinha L.S.Araújo-Pedagoga do CMEC